As loucuras do tempo mudaram o calendário do produtor rural Ezequiel Malinski. Ele planta hortaliças em Porto Alegre e sofreu com chuvas demais em agosto e setembro. Todo o trabalho de dois meses, durante o inverno, foi literalmente, por água abaixo. Agora, ele enfrenta o efeito contrário: falta umidade na terra para o plantio das verduras. O clima sempre ditou as regras na lavoura, mas nos últimos anos os extremos de seca ou de chuva parecem mais frequentes. A agricultura comprova com prejuízos o que os pesquisadores anunciam como uma certeza.
O mundo está mais quente, dizem eles. Em Canela, os especialistas mostraram dados oficiais, estudos de universidades e centros de pesquisa. Em todos eles, o aumento da temperatura aparece como uma evidência que deve mudar o cenário agrícola do país.
? A soja é uma cultura que pode vir a ser muito atingida no sul do Brasil por conta da combinação calor com deficiência hídrica. Agora, já está se trabalhando intensamente em cultivares que sejam mais adaptadas que isso. O que nós não podemos fazer é sermos adeptos da inação, ou seja, não fazer nada ? afirma o pesquisador da Embrapa, Eduardo Assad.
Os estudos apontam queda na produção de todas as culturas. No café arábica, por exemplo, os prejuízos podem chegar a R$ 882 milhões em 2020 e, 30 anos depois, em R$ 1,6 bilhão. De acordo com os especialistas, outro setor muito atingido deve ser a fruticultura de clima temperado. A redução nas horas de frio, no inverno, pode acabar com a produção de maçã das espécies mais comuns em Santa Catarina. O aumento da temperatura e a diminuição no volume de chuvas também preocupam nas áreas do semi-árido nordestino.
? É uma região onde vivem mais de 20 milhões de pessoas e muitos dependem da agricultura de subsistência. Então se espera, se não for feita nenhuma medida adaptativa, um aumento da insegurança alimentar, ou seja, indisponibilidade regional de alimentos, o que tem impactos obviamente na saúde, na nutrição, no crescimento infantil e assim por diante ? diz o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ulisses Confalonieri.
Os pesquisadores sugerem políticas públicas que orientem a população sobre os riscos diante das mudanças climáticas. Segundo eles, só assim será possível evitar tragédias como a de Santa Catarina, na maioria das vezes causadas pela ocupação desordenada em áreas de risco.
? Em termos de recursos hídricos, os impactos acarretam em torno de 5% a 6% do PIB brasileiro e isso traz, em anos como 2009, quase um comprometimento de 10% a 11% dos impostos que são gerados em regiões produtivas. Então, estamos falando de números expressivos num país como o Brasil, que está tendo uma atuação internacional importante, porém terá que trabalhar uma política de prevenção para que estes desastres não tenham impactos negativos, como está tendo até este momento ? afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Mendiondo.